Destaques — 08 novembro 2019
Respiração Bucal

A respiração bucal na infância, também conhecida como síndrome do respirador bucal (SRB), está relacionada com alterações do crescimento facial, problemas oclusais e da fala, distúrbios alimentares, alterações posturais, dificuldades escolares e doença do sono, sendo a apneia considerada uma das mais graves consequências, a ponto de interferir na qualidade de vida da criança. Essa condição é tida como um problema na área da saúde pública por sua alta prevalência e suas graves consequências para o organismo, resultando em expressivos índices de internações, além de altos índices de evasão escolar.

FATORES ETIOLÓGICOS

A etiologia da respiração bucal é multifatorial, podendo ser de natureza obstrutiva (p.ex; rinite, hipertrofia de cornetos, trauma nasal, desvio de septo nasal, hipertrofia das tonsilas palatinas e faríngeas, mal formações nasais, polipose nasal, tumores de cavidade nasal e rinofaringe) e não obstrutiva ( p.ex; hábitos e mal formações craniofaciais).
Cita-se também na literatura que a ausência de amamentação e o uso de mamadeira e de sucção de chupeta são outros fatores que contribuem para a instalação da respiração bucal.

SINAIS E SINTOMAS

Os principais sintomas de criança com respiração bucal são:
• Boca aberta
• Protrusão dos dentes anteriores
• Lábios inferiores hipotônico e superiores curtos
• Olhos inclinados nos cantos internos para baixo: olhar triste
• Olheiras
• Narinas estreitas por falta de uso
• Mucosa nasal ferida, escoriada e/ ou edemaciada
• Baixo peso ou obesidade
• Postura alterada
• Infecções de repetições “ites”
• Distúrbio de comportamento: hiperatividade, déficit de atenção e aprendizado, impulsividade e ansiedade.

CONSEQUÊNCIA

-Alterações craniodentofaciais

As principais alterações orofaciais são anteriorização da cabeça, face estreia, e alongada, lábios hipotônicos e evertidos, ausência de vedamento labial e língua hipotônica, rebaixada ou interposta. A maxila é atrésica com palato em ogiva, mordidas abertas e cruzadas, musculatura orofacial hipotônica e protrusão dos dentes superiores.
Outras alterações incluem boca aberta, cavidade nasal estreita e pouco desenvolvida, lábios superiores curtos e os inferiores flácidos e volumosos, deglutição atípica, mandíbula baixa e em relação de classe II, olhar vago, incisivos superiores protruídos, inclinação da cabeça para trás e abertura do ângulo mandibular. Essa condição foi denominada por Ricketts de “síndrome da obstrução respiratória” em virtude da ocorrência de hipertrofia de tonsila faríngea e tonsila palatina.
Segundo Angle, entre as mais variadas causas da maloclusão, a respiração bucal é a mais potente, constante e variada em seus resultados, com atuação mais efetiva entre 3 e 14 anos de idade, causando desenvolvimento assimétrico dos músculos, dos ossos do nariz, da maxila e da mandíbula, bem como uma desorganização das funções exercidas pelos lábios, pelas bochechas e pela língua.
Os efeitos da respiração bucal são sempre manifestados na face.

-Alterações Funcionais

As alterações dos órgãos fonoarticulatórios incluem:
• Hipotrofia, hipotonia e hipofunção dos músculos elevadores da mandíbula
• Alterações do tônus com hipofunção dos lábios das bochechas
• Alteração do tônus da musculatura suprahióidea
• Lábio superior retraído ou curto e inferior evertido ou interposto entre os dentes, lábios secos e rachados om alteração de cor e frequentes sangramentos
• Anteriorização da língua ou elevação de seu dorso para regular o fluxo de ar e propriocepção alterada
• Mastigação ineficiente, levando a problemas digestivos e a engasgos pela incoordenação da respiração com a mastigação
• Deglutição atípica, com ruído, projeção anterior da língua, contração exagerada de orbicular e movimentos da cabeça
• Fala imprecisa, com articulação trancada e excesso de saliva, sem uso de traços de sonoridade pelas otites frequentes, com altos índices de ceceio anterior ou lateral e voz com hiper ou hiponasalidade ou rouca
• Deformidades esqueléticas, musculatura abdominal flácida e distendida
• Cabeça mal posicionada em relação ao pescoço, levando a alterações para a coluna, com o intuito de compensar o mau posicionamento
• Ombros rodados para a frente, comprimento do tórax, entre outras.

Os principais sinais de apneia do sono ou distúrbio do sono são ronco noturno, dormir de boca aberta, irritabilidade ou cansaço durante o dia, baixa concentração na escola, baixo rendimento físico nos esportes, problemas de comportamento, face longa e estreita, palato estreito e profundo, olheiras, entre outros.
A síndrome do desconforto respiratório da criança, em casos mais graves, evoluem para a apneia do sono, ou seja, parada respiratória durante o sono.

BINÔMIO FORMA E FUNÇÃO

O desenvolvimento da face durante a vida é influenciado pelo desenvolvimento adequado da respiração, da mastigação, da fonação e da deglutição.
Qualquer alteração na função significa alteração na forma e vice-versa. A causa mais comum para que aconteçam os “distúrbios miofuncionais da face” está relacionada com as perturbações da qualidade respiratória quando esta deixa de ser efetuada pelo nariz.
Prevê-se que o esqueleto facial, que é muito lábil, responda as forças que agem sobre ele.
Sendo assim, qualquer alteração na função que muda a força agindo sobre o esqueleto facial pode produzir mudanças na morfologia:
• A pressão direta da língua sobre o palato estimula o desenvolvimento do maxilar superior
• A língua repousa no assoalho da boca, deixando de exercer pressão no palato, com consequente estreitamento maxilar (favorecido também por alteração da musculatura facial)
• O ar que penetra pela boca empurra o palato para cima e, com a ausência de pressão e força contraídas da coluna de ar, leva ao abaulamento do palato, tornando-o ogival
• O abaixamento da mandíbula, em decorrência da respiração bucal, altera o sistema de força que age no complexo maxilomandibular. O osso hioide acompanha a descida da mandíbula, o que faz com que a língua seja removida do palato. Sendo assim, o peso do músculo bucinador não tem a massa oponente da língua, o que pode provocar mordidas cruzadas.

Pereira, Marina Batista Borges. Manual de Ortopedia Funcional dos Maxilares: uma abordagem cínico-infantil/ 1.ed. Rio de Janeiro: Santos,2017.

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Marta Meireles

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