Destaques — 28 maio 2019
PREVENÇÃO E TRATAMENTO DO DESGASTE EROSIVO NA DENTIÇÃO DECÍDUA

Desde a erupção, os dentes são expostos a fatores, como substâncias ácidas, má execução das técnicas de higiene bucal ou hábitos deletérios, que podem provocar algum tipo de desgaste com o decorrer do tempo. Por definição, o desgaste erosivo (DDE) é um processo químico-mecânico decorrente da exposição repetitiva dos dentes a ácidos e forças mecânicas excessivas, o que resulta na perda cumulativa dos tecidos dentários (esmalte e dentina), sem que haja a participação de micro-organismos.

A alta prevalência e gravidade de DDE em dentes decíduos é alarmante, pois quando esses já apresentam algum sinal desta condição, há risco até 5 vezes maior de a dentição permanente desenvolver lesões de DDE, comprometendo, assim, o desenvolvimento oral da criança ao longo de toda sua vida. Portanto, para obter um prognóstico favorável de saúde bucal, é imperativo que os profissionais da área de Odontologia realizem uma avaliação precoce da dentição decídua, a fim de estabelecer um diagnóstico preciso de lesões de DDE. Por conseguinte, o presente capítulo visa apresentar uma perspectiva geral sobre a etiologia, os aspectos clínicos e tratamentos dessas lesões na dentição decídua, auxiliando, assim, os profissionais da área no diagnóstico dessa condição.

ETIOLOGIA DO DESGASTE DENTÁRIO EROSIVO NA DENTIÇÃO DECÍDUA
Considerando o ponto de vista holístico de saúde, diversos fatores comportamentais ou pessoais podem estar relacionados ao desenvolvimento de lesões de DDE na dentição decídua, estando eles associados diretamente ao paciente ou à sua nutrição.
Fatores Nutricionais:
Em geral, bebidas e alimentos com pH ácido considerados prejudiciais aos dentes.
No paciente infantil e adolescente, devemos considerar ainda as balas, os chicletes e, mais recentemente, as balas em spray (spray candy), que têm gosto extremamente azedo e estão cada vez mais populares nesta faixa etária.

FATORES RELACIONADOS AO PACIENTE
A idade é um dos principais fatores relacionados ao paciente. Na cavidade oral, a exposição constante da dentição decídua às substâncias erosivas aumenta o risco de desenvolvimento de DDE, sendo que este seleciona de forma linear com o avanço de idade. Dessa forma, criança mais velhas têm risco mais alto de apresentarem lesões de DDE.

A saúde geral da criança também tem um papel importante no desenvolvimento de lesões de DDE, visto que algumas doenças podem aumentar sua incidência. Um exemplo é o refluxo gastroesofágico (RGE), em que ácidos intrínsecos provenientes do estômago podem atingir a cavidade oral. Existem evidências de que adultos que sofrem com RGE podem apresentar mais lesões de DDE. Entretanto, essa associação não está totalmente estabelecida no paciente infantil.

Alguns medicamentos também têm potencial erosivo e podem estar relacionadas ao DE.
Vale considerar, ainda, os possíveis efeitos provocados por hábitos e comportamentos do paciente durante a ingestão de alimentos ácidos. Quando uma criança retém e/ou movimenta uma bebida ácida em sua boca (ato de bochechar) ou a ingere em pequenos goles, há mais probabilidade de ela apresentar lesões de DDE, devido ao prolongamento do tempo de contato entre a bebida e os dentes. Existem poucos estudos sobre este assunto, principalmente devido à dificuldade de mensurar tais hábitos e comportamento. Por outro lado, já foi observado que o consumo de substâncias ácidas antes de dormir aumenta o risco do DDE. Durante o sono, o fluxo salivar é consideravelmente reduzido e há diminuição do efeito protetor da saliva. Portanto, devemos evitar tanto os alimentos ácidos quanto os açucarados próximo ao horário de dormir. Isso também segue o mesmo princípio do controle da doença cárie, a qual continua sendo a enfermidade mais relevante na dentição decídua. Do mesmo modo, ressaltamos que é imperativo que os pais escovem cuidadosamente os dentes das crianças, principalmente antes de dormir, cultivando, assim, um hábito de boa higiene bucal no paciente infantil.

MEDIDAS PREVENTIVAS RECOMENDADA PARA CONTROLAR OU PREVENIR O DDE
• Controle da ingestão e exposição aos ácidos.
• Reduzir a exposição aos ácidos por meio de redução da frequência e do tempo de contato com os ácidos (consumi-los apenas nas refeições principais).
• Evitar o consumo de alimentos e bebidas ácidos como o último item do dia.
• Não armazenar as bebidas ácidas na boca e evitar ingeri-las em pequenos goles; usar canudo colocando-o na região posterior da boca, evitando o contato com os dentes.
• Não “sugar” as bebidas entre os dentes.
• Escolher bebidas e alimentos sem potencial erosivo ou com potencial erosivo baixo; terminar as refeições com produtos à base de leite.
• Evitar alimentos e bebidas que induzem o refluxo, como frutas cítricas, vinagre, alimentos gordurosos (frituras, p.e.), tomate, café, chá preto, bebidas carbonatadas e chocolate.
• Usar gomas de mascar sem açúcar para estimular o fluxo salivar.
• Nos casos de suspeita de refluxo gastroesofágico, indicar o paciente para um gastroenterologista para tratamento indicado.
• Nos casos de anorexia/bulimia, iniciar tratamento psicológico ou psiquiátrico.
• Após o vômito, enxaguar a boca com água ou leite, solução de bicarbonato de sódio ou colutório bucal fluoretado e limpar a língua para remover os resíduos dos ácidos.

Odontopediatria : evidências científicas para a conduta clínica em bebês e pré-escolares / Marcelo Bönecker…[et al.] – – São Paulo : Quintessence Editora, 2018.

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Marta Meireles

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