Destaques — 28 maio 2019
MORDIDA CRUZADA POSTERIOR

A mordida cruzada posterior é definida como uma discrepância transversal entre as arcadas dentárias, onde ocorre uma relação inversa na oclusão entre os dentes superiores e inferiores. Os dentes envolvidos podem ser desde um canino ou todo o segmento posterior, e apresentam a cúspide vestibular ocluindo paulatinamente com cúspide vestibular do dente antagonista anterior. Pode ser uni ou bilateral.
As mordidas cruzadas podem ser origem funcional, dentária ou esquelética.
A mordida cruzada posterior dentária pode envolver desde um canino ou todo o segmento posterior, com inclinações dentárias desfavoráveis. Apresentam a cúspide vestibular ocluindo paulatinamente com cúspide vestibular do dente antagonista inferior.
A mordida cruzada posterior unilateral funcional, em crianças, é resultante do fechamento da mandíbula em uma posição anormal devido a interferências dentárias acompanhadas de desvio de linha média. Geralmente, envolvem os caninos decíduos.
Observa-se também o deslocamento do côndilo para posterior, do lado da mordida cruzada e deslocamento do côndilo para anterior, do lado oposto ao da mordida cruzada.
O diagnóstico clínico da mordida cruzada funcional é realizado a partir da avaliação da oclusão cêntrica e da oclusão funcional. Segundo Planas, deve haver coincidência entre essas duas posições.
Quando não ocorre, considera-se o primeiro contato dentário como oclusão cêntrica e a intercuspidação máxima, para onde a mandíbula se devia, como oclusão funcional.
Assim fica caracterizado o desequilíbrio oclusal desde tenra idade, acarretando:
• Excentricidade condilar, com deslocamento condilar para posterior, do lado cruzado e para anterior, do lado não cruzado;
• Desvio de linha média para o lado cruzado;
• Alteração da função oclusal e muscular. Estudos eletromiograficos, em crianças com mordida cruzada funcional, demostrou mais atividade da porção posterior do músculo temporal no lado cruzado, tanto m posição postural como durante a mastigação.

Esses achados sugerem um deslocamento frequente da mandíbula para o lado cruzado durante a mastigação e deglutição.
Os desvios funcionais envolvem atividades musculares alterada, bem como alterações na posição das estruturas de tecidos duros e moles na ATM. Estes aspectos devem ser considerados na elaboração de um planejamento que vise corrigir de fato os distúrbios de forma e função do Sistema Estomatognático (SE), e não só correções nas posições de dentes.
A mordida cruzada posterior esquelética ocorre devido a uma discrepância transversal na relação entre as arcadas dentárias. Assim, pode estar relacionada à atrésia bilateral da maxila, decorrentes da respiração oral e postura inadequada de língua, pela duração prolongada de hábitos de sucção indesejáveis, como dedo, chupeta e mamadeira. Essa discrepância transversal entre as arcadas superior (mais estreita) e inferior (mais ampla) lava a mandíbula a se deslocar lateralmente para uma posição mais confortável para a criança, chamada oclusão funcional. Nestes casos, observa-se também um componente funcional decorrente da incongruência das arcadas dentárias.
Segundo Betts, a mordida cruzada posterior, muitas vezes, está relacionada a problemas esqueléticos, e não só a displasias dentárias, envolvendo a maxila, a mandíbula ou ambas. Para esta avaliação, os exames radiográficos e as tomografias tridimensionais são elementos de diagnósticos fundamentais.
Esta avaliação e o diagnóstico do problema dentário ou esquelético são muito importantes para a definição do tipo de tratamento a ser realizado.
A prevalência de mordida cruzada posterior é alta em usuários de chupeta (20,4%), sendo a mordida cruzada posterior unilateral mais prevalente do que a bilateral.
A alta prevalência de mordida cruzada posterior pode estar associada a hábitos de sucção de chupeta persistente além dos 2 anos de idade.
Crianças amamentadas por menos de 9 meses e que fizeram uso regular de chupeta entre 12 meses e 4 anos de idade presentam fatores de risco de instalação de mordida cruzada posterior.
Na dentição decídua, as mordidas cruzadas posteriores se estabelecem em geral, durante erupção dos caninos decíduos, que podem apresentar uma relação de oclusão topo a topo, levando a desvios da mandíbula para a direita ou para a esquerda, cruzando a mordida (adaptação funcional).
Cerca de 90% dos casos de mordida cruzada posterior podem ser atribuídos a interferências cuspídeas na área de caninos. Entretanto, pode ocorrer uma condição favorável para esse cruzamento durante a fase de erupção dos incisivos laterais decíduos, caso venham a irromper mais para palatino, desviando a mandíbula lateralmente. Assim no momento em que os caninos irrompem, o seu posicionamento já estará desviado, instalando-se assim a mordida cruzada posterior desse mesmo lado.
Outro fator relacionado ao surgimento da mordida cruzada é a alteração na sequência favorável de erupção, quando os caninos irrompem antes dos primeiros molares decíduos, nesse caso, o plano oclusal não se estabelece de forma estável, como ocorreria se os primeiros molares irrompessem logo após os incisivos, determinado o primeiro plano oclusal, mais estável e equilibrado. Sendo os caninos conoides, podem levar à instabilidade da mandíbula e ao cruzamento da mordida, com desvio da linha média.
Os movimentos mandibulares fisiológicos estimulam a maxila em seu desenvolvimento transversal e sagital. Nas regiões de mordida cruzada, o estímulo fica invertido e a maxila recebe o golpe mastigatório (impacto), de fora para dentro, levando à atrésia deste lado. Como a mandíbula continua seu desenvolvimento no lado de não trabalho, podem ocorrer assimetrias dos maxilares e da face.
A presença desta oclusopatia pode levar a:
• Alterações na função mastigatória em crianças, como a assimetria da atividade dos músculos da mastigação,
• Menos eficiência mastigatória,
• Menos força de mordida,
• Alterações morfológicas musculoesqueléticas.
São fundamentais o diagnóstico precoce e o tratamento oportuno da mordida cruzada, por várias razões:
• Não tem correção espontânea;
• Pode provocar desgastes dentários inadequados;
• Pode desenvolver problemas periodontais por traumatismo oclusal;
• Pode provocar interferências no desenvolvimento e crescimento normais das arcadas dentárias;
• Pode provocar alteração na posição dos côndilos, nos casos de mordida cruzada funcionais;
• Pode acarretar assimetria facial na idade adulta.

Chedid, Silvia José
Ortopedia e ortondontia para a dentição decídua: atendimento integral ao desenvolvimento da oclusão infantil / Silvia José Chedid. -São Pulo: Santos, 2013.
388p.: il.;28 cm

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Marta Meireles

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